Quando se faz a pergunta: Em quanto da Bíblia podemos confiar? A resposta confiante muitas vezes ouvida é - com destaque especial na primeira palavra - "Toda a Escritura é dada por inspiração de Deus". II Timóteo 3:16.Mas quanto deve ser incluído na palavra "toda"?
No Antigo Testamento judaico e protestante, o livro de Daniel tem apenas doze capítulos. No Antigo Testamento católico há quatorze.
Qual deles está certo? Depois de tantos séculos, haveria talvez uma questão séria quanto à autenticidade dos documentos bíblicos?
Jesus parece ter sempre expressado confiança na Bíblia que usava. Certo dia, após a ressurreição, Ele disse a Seus discípulos que deviam crer em tudo o que se a Seu respeito estava escrito "na lei de Moisés, nos profetas, e nos salmos". S. Lucas 24:44.
Nessas palavras Jesus endossou os livros do Antigo Testamento conforme eram costumeiramente organizados naqueles dias. Através do anos, ao serem escritos, os livros do Antigo Testamento foram gradualmente organizados em três grupos ou divisões.
Os livros restantes do Antigo Testamento formavam a terceira divisão, "os Escritos".
Nos primeiro anos da Igreja cristã, mais vinte e sete documentos foram considerados como medida-padrão e finalmente organizados no cânon do Novo Testamento.
É interessante notar, entretanto, que o grego de II Timóteo 3:16 pode ser interpretado, como ocorre na New English Bible e outras, da seguinte maneira: "Toda Escritura inspirada tem seu uso."
Isto sugere, de preferência, que o apóstolo estava lembrando a Timóteo que, embora houvesse muitas escrituras em circulação, somente aquela que é inspirada por Deus é proveitosa.
Os judeus mais conservadores, em especial aqueles que estavam mais intimamente envolvidos na preservação do Antigo Testamento hebraico, jamais aceitaram os livros extras como canônicos. Eles os consideravam antes como "apócrifos", ou "desconhecidos", provavelmente significando que eles merecem ser retirados de circulação como espúrios ou heréticos.
Quando o erudito católico Jerônimo estava aprendendo hebraico, praparando-se para fazer a revisão da Bíblia latina, ele concordou com este conceito de que os livros extras do Antigo Testamento não eram legítimos. Ele pediu que todos esses livros que não estavam incluídos no cânon hebraico fossem considerados apócrifos.
Através dos séculos, muitos outros teólogos católicos doutos e líderes da Igreja têm tomado a mesma posição de Jerônimo. Mesmo o Cardeal Cajetano, oponente de Lutero em Augsburg em 1518, expressou sua conformidade com o cânon hebraico e recomendou que não se confiasse nos livros considerados por Jerônimo como apócrifos para pontos de doutrina.
A despeito disso, os Apócrifos conservaram sua posição tradicional na Vulgata Latina e nas traduções portuguesas do Antigo Testamento vindas do latim, em lugar de virem do original hebraico ou aramaico. A Bíblia do 1382, de João Wycliffe, era uma destas.
Na Bíblia além de 1534, Lutero reuniu os livros apócrifos em uma seção entre os Testamento e acrescentou estes dizeres: "APÓCRIFOS - isto é, livros que não são iguais às Escrituras Sagradas, mas são proveitosos e bons para se ler."
Todas a Bíblias inglesas dos protestantes, do século dezesseis, continham os Apócrifos no fim do Antigo Testamento. Na verdade, os livros discutidos foram incluídos regularmente nas Bíblias inglesas até uma decisão tomada em 1827 pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, no sentido de que o estatuto fundamental da sociedade proibisse a circulação dos Apócrifos através dela. A Sociedade Bíblia Americana chegou à mesma conclusão.
Como pode alguém saber pos si mesmo se os livros são dignos de sua confiança? E que dizer dos outros livros considerados não canônicos pelos judeus, protestantes e católicos indistintamente? Por que padrão um livro pode ser considerado como "impróprio"?
A história da origem dos livros extras fornece algumas pistas. As opiniões de centenas de fiéis não devem ser subestimadas. Mas em última análise, nada é tão convincente como a própria leitura dos livros. É também uma experiência muito interessante e às vezes recreativa.
Pode-se tomar a decisão mais cômoda com respeito aos escritos apócrifos copiados depois dos livros do Novo Testamento. Este incluem os evangelhos, atos, epístolas e revelações apócrifos.
No Evangelho de Tomé, conta-se a história de que o Menino Jesus construiu pequenas represas e fez pardais do barro úmido. Quando Seu pai ralhou por Ele estar fazendo aquilo no sábado, Jesus ordenou: "Vão embora!" E os pardais levantaram vôo e foram embora cantando.
Em outra parte, diz o mesmo livro apócrifo, um menino bateu no ombro de Jesus. Esta amaldiçoou o menino e ele morreu.
Os Atos de João mencionam uma experiência extraordinária de João com os percevejos. A tradução é tirada da imprescindível edição do Novo Testamento apócrifo de M. R. James: "Logo no primeiro dia, chegamos a uma pousada deserta, e quando estávamos à procura de uma cama para João, vimos uma coisa engraçada. Havia algures uma armação de cama sem cobertores, sobre a qual estendemos as capas que estávamos vestindo, e pedimos que ele se deitasse nela e repousasse, enquanto nós outros dormiríamos no chão. mas quando ele ia deitar-se, era importunado pelos percevejos; e como estes se tornassem cada vez mais incômodos, por volta da meia-noite ele lhes disse, de maneira que todos podemos ouvir: "Digo-lhes, ó percevejos, que cada um de vocês se comportem, e abandonem sua moradia por esta noite, fiquem quietos em um lugar e se mantenham longe dos servos de Deus. E enquanto ríamos, e conversávamos um pouco, João se vestia para dormir; e nós, falando baixinho, procuramos não perturbá-lo...
Os Atos de Pedro contam como Simão o mágico impressionava as multidões voando sobre a cidade de Roma! Outro fragmento denominado Atos de André e Pedro, lembra como Pedro conquistou mil almas fazendo um camelo passar pelo fundo de uma agulha nas mais extraordinárias e engraçadas circunstâncias.
Uns poucos grupos de cristãos primitivos aceitaram alguns dos livros apócrifos do Novo Testamento como autorizados, mas o parecerem quase unânime de toda a Igreja cristã tem sido que os livros extras do Novo Testamento simplesmente não contribuem para a dignidade e o bom senso dos livros já considerados canônicos.
Os livros apócrifos do Antigo Testamento, que foram rejeitados pelos católicos, protestantes e judeus, foram indistintamente chamados "pseudo-epigráficos", significando "falsamente entitulados". Muitos deles contêm material claramente inferior e indigno de um lugar entre escritos dos grandes profetas hebreus.
Quando alguém vai aos livros apócrifos aceitos no cânon católico, a decisão exige consideração mais cuidadosa. Parte do material, como as histórias de Bel e o Dragão, não parece mais sério do que anedotas no Novo Testamento Apócrifo. Mas o livro de Primeiro Macabeus contém valiosas histórias. Eclesiásticos e a Sabedoria de Salomão encerram dizeres muito sábios e piedosos.
Lutero se opôs ao Apócrifos no sentido de que eles ensinam idéias contrárias aos livros do cânon hebraico. Entre estas estava a doutrina do purgatório e da eficácia das orações em favor dos mortos (II Macabeus 12:43-45). Ele fez observação também quanto ao considerável realce sobre a obtenção de mérito por meio das boas obras (Tobias 12:9; Eclesiástico 3:33; II Esdras 8:33; etc.)
Para minha própria satisfação, já li mais de uma vez a coleção inteira dos documentos bíblicos, até onde foi possível, de uma vez. Ela ocupa apenas um fim-de-semana prolongado, e o esforço é bastante válido.
Quando eu chegava ao último livro do Novo Testamento Apócrifo, ainda tinha vívidas lembranças de Gênesis e Malaquias, Primeiro Esdras e Segundo Macabeus, do Livro dos Jubileus e da História de Ahikar, Mateus e Apocalipse, do Evangelho Segundo os Hebreus, e da Revelação de São Pedro.
Nessa composição global, os sessenta e seis livros do cânon do Antigo e do Novo Testamento assumiam um lugar especial.
Não é que os livros apócrifos e pseudo-epigráficos sejam sem valor. Mesmo o pior deles, fala-nos alguma coisa das crenças e das práticas daquele tempo.
Mas entre os sessenta e seis há uma medida de coerência e consistência que se deve esperar e requerer de documentos que pretendem falar a verdade a respeito de Deus.
Esta é a norma básica de canonicidade. E através dos séculos, os livros que preencheram esse requisito foram reconhecidos como "alcançando a norma".
Quanto ao Antigo Testamento, parece haver boas razões para seguir o exemplo do católico Jerônimo, do protestante Lutero e das sociedades bíblicas interdenominacionais em reconhecer os trinta e nove livros do cânon hebraico como os mais dignos de nossa confiança.
